Posted by: ferdi in: ● November 9, 2005

SÃO PAULO - Que surpresa mais que agradável, muito feliz mesmo, a proporcionada pela companhia Teatro Art’ Imagem, com a sua visceral montagem de “Ratos e Homens”, a clássica tragédia contemporânea de John Steinbeck, em rápida passagem na Capital.
Por outro lado, um sentimento de vergonha se apossou de nós, anfitriões ignorantes da linhagem de visitantes nascidos e crescidos lá no Porto, Portugal, modestamente atravessando o oceano Atlântico para dissipar em nós qualquer dúvida sobre como fazer teatro de alta qualidade, sem perder a humildade dos verdadeiros servidores das tábuas cênicas.
Por que o constrangimento que se apoderou de nós?: uma equipe de tal qualidade jamais poderia circular por São Paulo em espaços tão acanhados, tão alternativos como, por exemplo, aquela exígua sala do imenso Memorial da América Latina.
Em respeito a um grupo que já atingiu a invejável, senão fantástica, marca de 80 criações (como se informa no programa da peça), salas teatrais bem equipadas poderiam ter sido acionadas com êxito, oferecendo condições de montagens condizentes com o rendimento desses – a este ponto- estóicos fazedores de teatro Também o anonimato da visita causa estranheza, pela divulgação nula, a merecer, pelo já dito, “pompa e circunstância”, trombeteando na imprensa a ilustre chegada.
Mas, desconhecendo bravamente todos os revezes da recepção atabalhoada de brasileiros no mínimo distraídos, os portugueses deram um show de competência em cena, criando do nada uma luz de nuances poéticas, quando não de tragédia iminente; recriando o engenhoso cenário de Ricardo Preto com visível fidelidade ao original; utilizando a trilha sonora de Carlos Adolfo com sensível adequação à pulsação de inexorável rumo a acertos de contas com o destino, imprimida com vigor pelo estreante diretor Fernando Moreira a sua fiel leitura do texto de Steinbeck; e, em fina sintonia com tudo isso, as interpretações realistas, de um raro verismo psicológico, de um quinteto impecável formado por Valdemar Santos (George), João Paulo Brito (Lennie), Pedro Carvalho (Candy), Luiz Araújo (no duplo trabalho de Curley e Slim) e Ângela B.Marques, como a sensual e frágil Mulher de Curley, o capataz da fazenda, local onde se localiza essa triste história de amizade, inocência e morte, permeada de amarga poesia da condição humana.
* AFONSO GENTIL é CRÍTICO TEATRAL filiado à APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
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