Ferdi

A censura em Portugal

Posted by: ferdi in: ● October 29, 2004

Eram 7h00 quando dois agentes da Polícia Judiciária (PJ) de Leiria, acompanhados por um procurador adjunto do Ministério Público (MP), bateram à porta de António Caldeira, autor do blogue ‘Do Portugal Profundo’. Um caso de “censura” e “tentativa de intimidação”, considera o professor universitário de Alcobaça, que tem divulgado na internet pormenores do processo Casa Pia.

Do Portugal Profundo
“Primeiro eles vieram atrás dos comunistas e eu não disse nada porque não era comunista.Depois vieram atrás dos judeus.  E eu não disse nada porque não era judeu.Depois vieram atrás dos sindicalistas. E eu não disse nada porque não era sindicalista. Então vieram atrás de mim. E já não havia mais ninguém para falar por mim.”
Martin Niemöeller, prisioneiro em Sachsenhausen e Dachau

Primeiro os órgãos da comunicação controlados pelo Estado, segundo os não directamente controlados  mas que precisam do mesmo para existir e agora chegou a vez dos blogues….

“Eles entraram e apreenderam disquetes, CD e o meu computador. Fizeram isso também em casa da minha mãe, de onde levaram um computador que eu já não usava há dez anos”, contou Caldeira ao CM. O professor de Marketing terá sido constituído arguido do crime de desobediência, por ter desrespeitados os autos que proibiram a reprodução das peças processuais ou documentos incorporados no processo Casa Pia. “Sou notificado de desobediência, mas isso pressupõe que eu conhecesse os autos. Como podem eles ter a certeza disso?” Caldeira terá também sido sujeito a termo de identidade e residência.

António Caldeira não tem dúvidas: “há uma rede pedófila de controlo do Estado a tentar silenciar o meu blogue e intimidar a minha acção”, considera, dizendo ter sido essa rede a fazer a denúncia que motivou o MP.

O blogue ‘Do Portugal Profundo’ nasceu há mais de um ano como um ’site’ generalista, e a dada altura passou a dar grande atenção ao processo Casa Pia. “Tomei conhecimento de que a questão era equivalente ao escândalo de pedofilia da Bélgica, só que mais grave. A rede pedófila é semelhante à Máfia de Itália, com a diferença de que ainda não fez mortos”, diz o professor. “Escrevo em nome do País e da democracia. Move-me a necessidade de limpeza do Estado desta rede pedófila.”

Apesar daquilo que considera ser uma “tentativa de intimidação e limitação da liberdade de expressão”, António Caldeira promete continuar a alimentar o seu blogue, que continua activo no endereço http://doportugalprofundo.blogspot.com. “Enquanto eu puder, no cumprimento da lei, continuarei a falar do que acho importante”.

Contactado pelo CM, Jorge van Krieken, autor do ’site’ ‘ReporterX’, que também publica informação de cariz semelhante, não quis revelar se alguma vez foi alvo de acções do MP. “Não vou prestar quaisquer declarações ao vosso jornal”, disse.

AINDA NO AR

Na sua mensagem mais recente o blogue ‘Do Portugal Profundo’ publica na íntegra o relatório do Serviço de Informações e Segurança (SIS), concluído em 1999, intitulado ‘A Pedofilia em Portugal: ponto da Situação’. “Este documento, apresentado no Conselho de Informações e Segurança, foi transmitido à Polícia Judiciária e motivou a investigação consequente”, explica Caldeira. O ’site’ nunca divulgou os nomes das vítimas.

Rodrigo de Matos
Correio da Manhã

2 Comments to "A censura em Portugal"

1 | Anonymous

29 de October de 2004 to ● 9:01 am

Como é possível? Este branqueamento do Processo Casa Pia mete nojo. Quantas crianças é que estes artistas precisam violar mais?
Como é possível não estarem mais artistas/políticos no banco dos réus? Será que algum dia, alguém, vai ter coragem de fazer justiça?
Tudo o que se lê clama por uma revolução, renovação, da classe política que à sombra do poder e notoriedade cometeu e comete os maiores desmandos com a maior impunidade.

Estaremos todos loucos? Autistas? Votámos neles?

2 | jorge ceu

15 de November de 2004 to ● 9:36 pm

Caro professor,
unicamente direi que estou solidário consigo e com todos que começaram por sofrer a nova era da caça ás bruxas.

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